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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Atribuído a ele

"De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.

Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou".

William Shakespeare

terça-feira, 5 de junho de 2012

"Duas canções de silêncio" (Vinícius de Moraes)

Duas canções de silêncio

Oxford

Ouve como o silêncio
Se fez de repente
Para o nosso amor

Horizontalmente...

Crê apenas no amor
   E em mais nada
Cala; escuta o silêncio
   Que nos fala
Mais intimamente; ouve
   Sossegada
O amor que despetala
   O silêncio...

Deixa as palavras à poesia...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Hilda Hilst I



Tenho medo de ti e deste amor
Que à noite se transforma em verso e rima.
E o medo de te amar, meu triste amor,
Afasta o que aos meus olhos aproxima

Conheço as conveniências da retina.
Muita coisa aprendi dos seus afetos
Melhor colher os frutos na vindima
Que busca-los em vão pelos desertos.

Melhor a solidão. Melhor ainda
Enlouquecendo os meus olhos, o escuro,
Que o súbito clarão da aurora vinda

Silenciosa dos vãos de um alto muro.
Melhor é não te ver. Antes ainda
Esquecer de que existe amor tão puro.


(Hilda Hilst)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Hilda Hilst II



Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância, sóis e sombras.

Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio).
As casas estão cheias. As mulheres parindo
Sem cessar, os homens amando sem amar
Ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor, serei eu só
A revelar o escuro das janelas eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?
Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.

E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.


(Hilda Hilst)

terça-feira, 22 de março de 2011

Hilda Hilst III


Que não se leve a sério este poema
Porque não fala dor amor, fala da pena.
E nele se percebe o meu cansaço
Restos de um mar antigo e de sargaço.

Difícil dizer amor quando se ama
E na memória aprisionar o instante.
Difícil tirar os olhos de uma chama
E de repente sabê-los na constante

E mesma e igual procura. E de repente
Esquecidos de tudo que já viram
Sonharem que são olhos inocentes

Ah, o mundo que os meus olhos assistiram
Na noite com espanto se abriram.

Na noite se fecharam, de repente.


(Hilda Hilst)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Sem saber o título... ou não há

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza
E transitória se tu me repensas


(Hilda Hilst)

domingo, 20 de março de 2011

A obscena senhora D


Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é orio
E deslizando apenas, nem tocar a margem

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou tema. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta.

Olha-me de novo Com menos altivez
E mais atento.

(Hilda Hilst)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Ao dia da poesia


Ausência


Subir ao Pico do Amor

e lá em cima

sentir presença de amor.


No Pico do Amor amor não está.

Reina serenidade de nuvens

sussurrando ao coração: Que importa?


Lá embaixo, talvez, amor está,

em lagoa decerto, em grota funda.

Ou? mais encoberto ainda, onde se refugiam

coisas que não são, e tremem de vir a ser.

(1968)


Ausência


Por muito tempo, achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.



(Carlos Drummond de Andrade)
(Boitempo/Corpo)

(1984)

terça-feira, 8 de março de 2011

"Canção do dia de sempre" (Mario Quintana)


Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
(Canção do dia de sempre, Mario Quintana)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Para um dia como hoje

Manuel Bandeira é um de meus autores brasileiros preferidos. Aliás é difícil dizer quem é o preferido entre tantos tão maravilhosos, mas até que a gente pode dizer: o meu poeta do coração, aquele escritor que tanto amo... Bom, ele está entre os meus eleitos indispensáveis da estante, aquele que nunca se deve deixar de ler.


Oração para Aviadores
Manuel Bandeira

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.


Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.


Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.


Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A um ilustre espanhol

"Esse claro dia espanhol, composto na treva de hoje sobre teu túmulo há de abrir-se, mostrando gloriosamente - ao canto multiplicado de guitarra, gitano e galo - que para sempre viverão os poetas martirizados" Poema de Carlos Drummond de Andrade em homenagem a Federico García Lorca.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

"É preciso não esquecer nada" (Cecília Meireles)



"É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence. "

terça-feira, 14 de julho de 2009

"CANÇÃO MÍNIMA"

No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,

a asa de uma borboleta.

(Cecília Meireles)



domingo, 21 de junho de 2009

"Tenho tanto sentimento"




Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 26 de março de 2009

"A verdadeira arte de viajar"

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!


(Mario Quintana in “A cor do invisível”)